Que decisão foi essa de ser professor?

Nicola, meu avô, levava-me todo domingo ao Cine Metro da Avenida São João para ver Tom e Jerry. Depois, comíamos uma coxinha caprichada em frente, no Fasano. Só eu e ele. Ele ia de terno, gravata, chapéu, como se fôssemos a uma reunião importante da Matarazzo, onde trabalhava. Ele tinha muita paciência - ou seria uma consciência(?) - ou a visão de educador para ficar ali, um homem de 65 anos, naquela gritaria, antes da matinê começar.

Annabella, minha tia professora de artes em escola de crianças especiais, sempre tinha papel, tinta, cola e tesoura sobre a mesa de costura da minha avó, e toda tarde era sempre uma aula a parte. A Nina, amiga da Annabella dava-me aula particular de redação todas as quartas a tarde, porque eu misturava a concordância do português com a do italiano. Não conseguiu me tirar do caminho os gibis italianos, mas me colocou frente a frente com monstros da língua portuguesa: Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo.

Foram meus pais que me deram uma máquina Olivetti e uma câmera Canon, as quais me garantiram os primeiros salários. Cristine, professora de Português do Colegial, apresentou-me todos os modernistas. E, assim, fui conhecendo os grafiteiros e os poetas de mimeógrafo da década de 70. Também fui resgatando os negativos fotográficos e os filmes em 16 mm que meu avô filmara nas décadas de 30 e 40. Também fui fazendo teatro com Joana Lopes e programando sessões de filmes de arte no Cineclube Bixiga, na década de 80. Eu passava todo o tempo ocioso assistindo às sessões, repetidas vezes, ali da porta da saída de emergência. Celso Favaretto, professor de estética da arte, também falava o tempo todo sobre a necessidade da arte.

Eu não dava conta dessa formação até a professora do Lucas, meu filho do meio, pedir uma lição. A pergunta era: Qual a profissão do seu pai? Qual a sua profissão mesmo, pai? Antes de responder, ele já havia escrito meia frase. Não havia o que fazer. Já estava registrado ali no caderno. Professor de cinema e vídeo, né? É, Lucas.

Agora eu sei, Lucas, o que antes eu não me dava conta. Comunicação e Arte, sempre voltadas para a educação. Era como que puxado para a educação. Primeiro, teatro de periferia, Penha, Brecht, Teatro Núcleo Independente. Depois, documentação de apoio pedagógico em foto preto e branco na Vila Sabrina e Jardim Brasil, o Programa Tome Ciência da SBPC na rádio USP, 93,7 MHz, a programação do Cineclube Bixiga. Depois, veio o Centro de Tecnologia e Gestão Educacional do Senac, que, com uma certa continuidade, ainda realiza o Leituras de TV e Vídeo para Educadores, um curso para formação de formadores.

Nomes híbridos: difusão científica, tecnologia educacional, teatro-educação, cineclube. Finalidades éticas e estéticas. Integração de áreas sem alarde. Agora, estou há 5 anos fazendo metodologia de projetos com o curso Vídeo e TV: da idéia ao produto final para adolescentes, usando a câmera como recurso na sala de aula. E várias experiências em cursos universitários dando aula como especialista em cinema e vídeo.

Esses professores que estiveram em várias matinês e tardes comigo tiveram toda a paciência do mundo e me ensinaram a ser professor.


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