"Quem não se comunica se 'estrumbica'"
Abelardo Chacrinha, gênio da TV Brasileira
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Apresento aqui o meu curso Comunicação e Aprendizagem. Você deve estar curioso para saber o que é que vai ser dado. Quer saber se vale a pena estudar a matéria.

Em situações convencionais, cursos são apresentados por meio de uma ementa que resume o conteúdo e justifica a abordagem que o professor acha adequada para a sua disciplina. Tudo isso é feito numa certa ordem, com começo, meio e fim decididos pelo mestre. Em parte, tal modelo é determinado pelo meio de comunicação utilizado, geralmente, o papel. Mas, quando usamos uma tela de computador, podemos experimentar algo diferente. Podemos, por exemplo, produzir um texto, cuja definição de começo, meio e fim possa ser feita pelo leitor. É essa última alternativa que escolhi para escrever minha ementa.

Não vou apresentar aqui a estrutura do curso. Vou apresentar motivos que justificam a necessidade de estudar os aspectos comunicativos da educação. Para começo de conversa, ofereço um painel com o conteúdo que desenvolvi. Esse painel tem um título e uma conclusão. A cada item, se você achar necessário, clique o título para ler o texto respectivo. Mas, de preferência, não faça isso na seqüência apresentada. Leia antes o painel todo e decida, se for o caso, por onde começar. Dessa forma, você poderá ordenar meu texto, de acordo com sua curiosidade e interesse.

Painel Temático de Comunicação e Aprendizagem


Comunicação

Comunicar é colocar em comum um saber. Se sei e não comunico, o meu conhecimento fica aprisionado na minha cabeça. Se não sei, pouco posso aprender sem pessoas dispostas a comunicar seu saber. Parece, portanto, que a comunicação é um fator importante para aprendizagem. Ou, para dizer de outra forma, compartilhar saberes é uma palavra-chave no processo de aprender.

Comunicação: colocar em comum

Dar Matéria

Parece claro e simples que ensinar é compartilhar saberes, comunicar. Mas, se a gente levar em conta os papos que acontecem na sala dos professores, nossas crenças sobre aprendizagem não vão no rumo desse entendimento. Normalmente, nós professores costumamos dizer que damos matéria. Essa expressão nada tem a ver com compartilhar. Dar matéria significa passar um conteúdo já organizado, administrado em "doses homeopáticas" para os alunos. Se estes últimos não aprenderem, cabe-lhes a culpa principal: provavelmente, não devem ter prestado atenção...

Dar matéria vai na contramão da comunicação

Reflexão ou Curso

Como vivemos na era da comunicação e da informação, estou propondo aqui uma reflexão sobre o problema da comunicação no processo de aprendizagem. Não preparei propriamente um curso. Prefiro dizer que Comunicação e Aprendizagem é um roteiro de reflexão para que a gente possa superar as idéias predominantes sobre o ato de educar. Se obtivermos sucesso, deixaremos de ver a educação como doação de conhecimentos.

Proponho mais uma reflexão do que um curso

Computadores e Princípio de Porco

Um grande cientista da computação, Joseph Weizenbaum (1976), diz que os informatas costumam promover o princípio do porco. Mas, o que é o princípio do porco? Simples. O porco quer sempre mais. Ele deve achar que mais é necessariamente melhor. E aí está o seu erro. Quanto mais ele consome, mais perto fica o dia fatal da viagem para o matadouro.

Com os computadores, consumir mais e mais informação ficou fácil. E há quem diga que isso é um grande avanço. Mas o consumo de mais e mais informação não traz per se sabedoria. É apenas uma aplicação moderna do princípio do porco.

Fartura de informação pode ser coisa enganosa. Muita gente a aprecia, achando que mais informação é sinônimo de conhecimento. Mas há um engano aqui: mais informação disponível não significa necessariamente que haja melhor comunicação.

Mais não quer dizer necessariamente melhor

Ensinar é Comunicar

Muita gente descreve aprendizagem como aquisição de conhecimento. Essa mesma gente, com coerência, descreve ensino como transmissão de conhecimento. Nos dois casos, fica ausente a idéia de comunicação.

Uma abordagem comunicativa da educação não admite possibilidades de aquisição de transmissão de conhecimentos. Ela sugere a necessidade de partilhar saberes. É claro que o professor deve saber mais que o aluno. Mas nenhum aluno é ignorante, algum saber o aluno tem; se nada soubesse, não poderia entender o professor.

Vale aqui, mais uma vez, o dito de Abelardo Chacrinha: "quem não se comunica..." É por tudo isso que insisto: ensinar é comunicar, é compartilhar saberes para tornar possível a tão afamada construção do conhecimento.

Vale a pena repetir: ensinar é comunicar

Impossibilidade Ontológia de Máquinas de Ensinar

Não vou falar de ontologia. Vou apenas afirmar que ensinar não é atividade própria para máquinas. O termo "máquinas de ensinar", empregado para nomear um equipamento inventado pelo psicólogo B. Skinner não é correto. Não é correto também achar que as novas e maravilhosas máquinas de nosso tempo possam ensinar. Por quê? A resposta fica por conta de uma definição do que é ensino.

Ensinar é colocar em comum conhecimentos. Fazer isso exige entender e trocar perspectivas entre dois ou mais parceiros em aventuras de saber alguma coisa. Nesse sentido, ensinar é uma atividade tipicamente humana. É possível que a gente possa falar em ensino em algumas relações entre animais não humanos. Mas, definitivamente, entender e trocar perspectivas não é uma atividade que possa ocorrer entre homem e máquina.

Ensinar é atividade tipicamente humana

Informação não é Conhecimento

No belíssimo romance de ficção científica Um Canto Para Leibowitz, os monges de uma ordem religiosa copiam fielmente e conservam os escritos científicos que sobraram depois de uma guerra atômica que devastou o planeta Terra. Mas os copistas do legado científico não sabem o que estão copiando. Não entendem os complicados gráficos, as fórmulas e, mesmo, os textos que reproduzem. Eles apenas evitam a perda da informação que sobrou dos velhos tempos.

Mas, um dia, surge um gênio que lê e entende a documentação científica reproduzida pelos monges de São Leibowitz. E, com isso, volta a ameaça à vida na Terra. O conhecimento de como fabricar bombas atômicas é recuperado e produz a última guerra do nosso planeta...

No cenário desta história de ficção, vemos claramente que livros são armazéns de informação, não de conhecimento. Este último exige a atividade de alguém capaz de dar sentido aos símbolos copiados pelos monges. Em outras palavras, conhecimento é sempre atividade de agentes capazes de representar o mundo, a experiência etc.

Informação é símbolo à espera de agentes de saber capazes de produzir significados
Produção de significados é Conhecimento


Conhecimento e Saber

Neste curso, vou usar o termo conhecimento num sentido restrito. Conhecer, dentro dos limites do esquema interpretativo que quero apresentar, é criar representações internas de informações e experiências vividas por sujeitos. Nesse sentido, o conhecimento é a dimensão subjetiva do saber. Ele não se confunde com duas outras dimensões de saber: a informação e a ação humana.

Penso que um novo modo de ver articulações entre conhecimento, informação e ação humana pode explicar melhor a dinâmica do saber. Confesso que esse assunto poderá ser visto como muito teórico. Mas, como já disse alguém, não há nada mais prático que uma boa teoria.

Uma visão compreensiva do saber, mostrando articulações entre conhecimento, informação e ação humana, pode fornecer bons elementos para decisões relativas a ensino-aprendizagem. Pode, sobretudo, situar de modo mais equilibrado o papel da informação como elemento constitutivo do conhecimento.

Em toda essa discussão, pretendo argumentar a favor de uma visão de que os professores são profissionais do saber, não produtores de informação ou transmissores de conhecimento. Em resumo:

Professores devem ser especialistas em processos de elaboração do saber



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